O Ministro Diz Que Deixar um Atrelado com Droga Apreendida a 360 Km Foi «Um Puro Ato de Boa Gestão». A Marinha Já Tinha Pedido Para o Remover Por Risco de Explosão.

Luís Neves, ministro da Administração Interna e antigo diretor nacional da PJ, enfrenta agora dois escândalos ao mesmo tempo: um atrelado com material de um laboratório de droga desmantelado que acabou a 360 quilómetros de onde devia estar, e um tanque de água numa propriedade da família que, nas suas próprias palavras, se tornou piscina. A Procuradoria abriu inquérito por indícios de abuso de poder e descaminho, e o Chega avançou com um pedido de comissão parlamentar de inquérito aos seus mandatos na PJ.

Bandeira de Portugal
Foto: Maxim Hopman / Unsplash

O Atrelado Que Foi Parar a Barcelos

O atrelado, com bidões de produtos químicos, tinha sido apreendido na Operação Pacoba, que desmantelou um grande laboratório de droga na região Oeste em dezembro de 2024. Foi encontrado nas instalações do empresário João Santos Carvalho, em Barcelos — a 360 quilómetros de onde devia estar guardado. A ex-subdiretora da PJ Luísa Proença disse não saber que tinha sido deslocado. Segundo o relato, o diretor financeiro da PJ, Álvaro Pires, sugeriu deixá-lo nas instalações do empresário por falta de espaço de armazenamento, e Neves aprovou a ideia, depois de a Marinha já ter pedido a remoção do material por risco de explosão.

Neves diz que a decisão foi “um puro ato de boa gestão”, já que a remoção estava orçada em 150 mil euros. Nega qualquer desvio de bens, qualquer compromisso de prova e qualquer ligação ao tráfico de droga, e remete o essencial para a investigação em curso.

O Tanque Que Se Tornou Piscina

O segundo caso envolve obras numa propriedade em Odemira, herdada pela família da mulher de Neves. As obras foram feitas pelo mesmo empresário, João Carvalho, descrito por Neves como amigo — a empresa já tinha onze contratos assinados com a PJ antes de se tornar parceira contratual do ministério. Neves nega ter favorecido o empresário ou retirado qualquer benefício. Admite que foi construído um tanque de água no terreno, que entretanto se tornou a piscina da família.

Declarações em Atraso e um Silêncio Chamado «Ensurdecedor»

Em maio de 2025, Neves e outros responsáveis da PJ foram chamados a entregar declarações à Entidade para a Transparência. Segundo o próprio, objetaram porque os formulários incluíam os endereços pessoais de polícias, o que considerou um risco de segurança. Já como ministro, soube que teria de apresentar uma declaração substitutiva, o que fez em maio de 2026, depois de constatar que estava casado em regime de comunhão de bens. Admite que a declaração anterior não incluía a empresa da mulher, mas nega qualquer tentativa de ocultação.

Neves diz que as acusações contra a sua honra são “gravíssimas” e considera-as infundadas, embora admita que algumas decisões “podiam ter sido geridas de outra forma”. Garante que nunca pensou em demitir-se e que tem o apoio do primeiro-ministro Luís Montenegro. A líder da Iniciativa Liberal, Mariana Leitão, já classificou o seu silêncio sobre o caso de “ensurdecedor”.

Vídeo: O Tanque, o Atrelado e o Amigo

A Renascença resume os dois casos e as explicações de Luís Neves — ou a falta delas.

O tanque, o atrelado e o amigo. As explicações de Luís Neves, ou a falta delas — Renascença

https://www.youtube.com/watch?v=NNEdkA7BsPc

Um atrelado, um tanque, e o mesmo amigo empresário nos dois casos. Neves diz que nenhum dos dois é o que parece. A Procuradoria, por agora, está a verificar exatamente isso.

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