Foi, sem dúvida, a telenovela diplomática mais curta e mais cara do ano. Durante quinze meses, a ex-apresentadora da Fox News e ex-futura nora de Donald Trump representou os interesses dos Estados Unidos em Atenas com a mesma discrição de um elefante a atravessar uma loja de porcelanas — só que o elefante, pelo menos, não cobrava comissão.

Greek flag waving against a blue sky in Athens

A fatura de 100 mil dólares anterior à audição

Segundo mensagens de texto obtidas pelo Wall Street Journal, apenas dias antes da sua audição de confirmação no Senado, a futura embaixadora escreveu a um doador republicano com um pedido dos mais discretos: será que ele podia pagar-lhe uma fatura da American Express de 100 mil dólares? Em troca, oferecia-se algo: acesso a altos responsáveis da Administração, um privilégio que a maioria dos americanos não consegue nem pagando os impostos em dia durante vinte anos seguidos.

O doador nunca enviou o dinheiro. O Senado, por sua vez, enviou-a na mesma para Atenas. Os advogados dela explicaram depois, com uma seriedade digna de aplauso, que a quantia correspondia a honorários por pagar de aparições públicas contratadas antes da nomeação — uma coincidência matemática que, por mero acaso, venceu precisamente na semana da audição, como qualquer fatura em atraso que se preze.

Um lobista à mesa da diplomacia e um ataque de fúria por causa de Davos

A partir daí, a lista de acusações cresceu com a generosidade de um orçamento de fim de ano: um lobista de uma construtora grega admitido em reuniões diplomáticas confidenciais, uma ameaça lançada ao jantar de que os Estados Unidos poderiam “enfraquecer” o governo grego (o exemplo escolhido para intimidar foi, com todo o tato, a Roménia), viagens de luxo a França com executivos do setor energético e, o clímax emocional de todo o caso, a indignação pública por não ter sido convidada para um evento de temática grega em Davos.

A embaixada transformou-se, segundo várias fontes, num ambiente de trabalho hostil, com despromoções incluídas dentro da sua própria equipa de segurança — algo notável, já que normalmente as pessoas contratadas para te proteger não acabam a querer proteger-se de ti.

O secretário de Estado defendeu-a durante quinze meses, até descobrir que não tinha rede

Marco Rubio apoiou-a publicamente durante meses — “a nossa embaixadora tem sido uma embaixadora forte” — até baixar discretamente o tom para um simples “sem comentários”, explicando ao deixar Atenas que acusações anónimas “não são o evangelho”. O vice-presidente JD Vance pediu paciência até se conhecerem os factos, o que em tradução política costuma significar “vamos ver se a notícia se esquece com o tempo”.

A 12 de outubro, Trump anunciou que estava “a avaliar” demiti-la: “Não estamos contentes.” No dia seguinte, a Casa Branca pediu-lhe a demissão, descrevendo-a na mesma frase como “um trunfo maravilhoso para a equipa” — possivelmente o oxímoro mais conseguido que esta Administração já produziu. Questionado sobre a sua ligação a uma mulher que esteve noiva do seu filho, o presidente esclareceu o assunto com a sua elegância habitual: “Ela não era membro da minha família. Acho que foi só namorada do meu filho, há muito tempo.”

A própria Guilfoyle anunciou no X que o cargo tinha sido “a honra da sua vida”, negou tudo no mesmo parágrafo e, nesse mesmo parágrafo, reconheceu que “o meu tempo como embaixadora pode estar a chegar ao fim”. Na Administração Trump, ao que parece, as duas afirmações podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, um pouco como na física quântica — só que aqui a partícula é uma fatura de cartão de crédito.

O inspetor-geral do Departamento de Estado ainda tem o resto do processo para analisar. Entretanto, uma coisa fica tão clara como a luz do Mediterrâneo: em Washington, “um trunfo maravilhoso para a equipa” e “quinze meses de acusações graves” acabam por ser, afinal, exatamente a mesma linha do currículo.

Partilhe este artigo: