O G7 Fechou um Acordo “Histórico” sobre o Preço do Gasóleo. O Acordo É Que Ninguém Proíbe Nada Que Já Não Tencionava Proibir.

O gasóleo atingiu um recorde de 6,52 dólares por galão nos Estados Unidos no mês passado, pelo que o G7 realizou conversações de emergência e anunciou, com considerável pompa, que os seus sete membros libertariam 100 milhões de barris de petróleo e gasóleo das suas reservas ao longo de quatro meses — um plano de resgate que, visto de perto, consiste sobretudo em Donald Trump prometer não fazer aquilo que parte do seu próprio partido lhe andava a pedir que fizesse.

Uma bomba de gasóleo — o preço em estações como esta é o que o anúncio do G7 pretendia mover
Uma bomba de gasóleo — o preço em estações como esta é o que o anúncio do G7 pretendia mover

A Ameaça, o Recuo e a Conferência de Imprensa

Alguns republicanos norte-americanos tinham instado Trump a proibir diretamente as exportações de gasóleo, para forçar mais combustível a ficar no país e baixar os preços. A declaração conjunta do G7 excluiu isso explicitamente, com os membros a concordarem em não limitar as exportações de energia entre si de todo. O próprio Trump confirmou o recuo: “Não vamos aplicar a proibição de exportação. Vamos fazer aquilo que supostamente devemos fazer.”

O presidente francês Emmanuel Macron, por seu lado, descreveu a não-proibição como um triunfo da coordenação: “Esta decisão comum e esta unidade deveriam fazer baixar os preços”, disse, acrescentando que “os volumes que estamos a libertar deveriam também acrescentar liquidez ao mercado.” Esses volumes equivalem, grosso modo, àquilo que os membros do G7 já não tencionavam reter uns aos outros.

Os Números Que o Anúncio Não Mudou

O gasóleo nos EUA estava em média nos 6,37 dólares por galão no dia do anúncio, pouco abaixo do recorde de 6,52 dólares atingido três semanas antes — e ainda quase o dobro dos 3,70 dólares por galão de há um ano. “A libertação de emergência por parte dos membros do G7 vai exercer alguma pressão em baixa sobre os preços, em particular sobre os preços globais do gasóleo”, afirmou Hamad Hussain, da Capital Economics. “No entanto, o impacto será passageiro, dado tratar-se apenas de uma solução temporária para o aperto da oferta.”

O analista Naeem Aslam foi mais longe, alertando para uma “potencial reversão do mercado” já na manhã de segunda-feira seguinte. O ex-analista da AIE Neil Atkinson foi direto: a libertação “não resolve o problema fundamental de que a oferta global continua abaixo do normal” — um problema causado pela guerra dos EUA e de Israel contra o Irão, que perturba o gasóleo do Médio Oriente, pelos ataques ucranianos que pararam as exportações das refinarias russas, pela própria suspensão das exportações de gasóleo pela China, e pela época de colheitas, que mantém a procura elevada de qualquer forma.

Um petroleiro no mar — o tipo de navio que transporta os barris que o G7 está agora a libertar das suas reservas de emergência
Um petroleiro no mar — o tipo de navio que transporta os barris que o G7 está agora a libertar das suas reservas de emergência

A Gastar o Fundo de Emergência numas Eleições

O momento não é por acaso: Trump enfrenta as eleições legislativas intercalares dos EUA a 3 de novembro, com números fracos de aprovação na economia. Esta libertação soma-se ainda a um acordo de março entre os membros da Agência Internacional de Energia para libertar já 426 milhões de barris — o que significa que reservas de emergência, construídas para crises de abastecimento reais, estão a ser esgotadas duas vezes no mesmo ano, com analistas a alertar que não há “visibilidade sobre preços futuros ou acordos de paz” que o justifique, nem ainda um plano para as repor.

Cem milhões de barris de crude e gasóleo soam a uma cifra enorme ditos assim, sozinhos, até serem comparados com um mercado global de gasóleo que consome dezenas de milhões de barris por dia. O que explica, grosso modo, porque é que o Brent caiu abaixo dos 100 dólares o barril durante cerca de uma tarde após o anúncio, voltando a subir para perto dos 102 dólares na sessão seguinte.

A solução do G7 para uma subida de preços que os próprios provocaram foi, no final, uma declaração conjunta a confirmar que nenhum dos seus membros a agravaria de propósito — apresentada ao mundo como uma ação histórica e coordenada, descontada pelo mercado em poucos dias, e paga com reservas que, para já, ninguém tem plano para repor.

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